O cinema é muito importante, não apenas como forma de entretenimento e diversão, mas também como fonte de informações e denúncia de problemas sociais. Atualmente, podemos observar o ressurgimento de um cinema nacional de qualidade, neste cenário encontra-se o documentário “Perdão, Mister Fiel”, dirigido por Jorge Oliveira.
O documentário que narra a morte do operário Manoel Fiel Filho no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) de São Paulo em 1976, foi considerado o Melhor Filme no Festival de Cinema de Brasília, em novembro deste ano.


Cenas do Documentário “Perdão, Mister Fiel”
Além da morte do operário comunista, nesse filme também é discutida a atuação dos Estados Unidos nos países latino-americanos durante as décadas de 1970 e 1980, principalmente, no que tange à perseguição aos comunistas por meio da “Operação Condor”. Conta com inúmeros depoimentos, tantos das vítimas, como dos torturadores, entre eles está o antigo agente do DOI-CODI, Marival Chaves. Ele afirma que muitos dos presos políticos, após serem torturados e mortos, tiveram seus corpos esquartejados.
Entre esses corpos esquartejados, encontra-se o de Rubens Paiva, engenheiro e político desaparecido em 1971, conforme assevera Chaves. O desaparecimento de Rubens Paiva foi contado brilhantemente por seu filho, Marcelo Rubens Paiva, em seu livro autobiográfico Feliz Ano Velho :
No dia 20 de janeiro de 1971 era feriado no Rio, por isso dormi até mais tarde. De manhã quando todos se preparavam para ir à praia (e eu dormindo), a casa foi invadida por seis militares à paisana, armados com metralhadoras. Enquanto minhas irmãs e as empregadas estavam sob mira um deles, que parecia ser o chefe, deu uma ordem de prisão: meu pai deveria comparecer na Aeronáutica para prestar depoimento. Ordem escrita? Nenhuma. Motivo? Só deus sabe.
[…]
Mesmo sob censura a Imprensa pegava no pé. Finalmente, no dia 24 de fevereiro, sai no Diário Oficial da União o que até hoje é a versão do exército:
“SEGUNDO INFORMAÇÕES DE QUE DISPÕE ESTE COMANDO, O CITADO PACIENTE, QUANDO ERA CONDUZIDO PARA SER INQUIRIDO SOBRE FATOS QUE DENUNCIAM ATIVIDADE SUBVERSIVA, TEVE SEU VEÍCULO INTERCEPTADO POR ELEMENTOS DESCONHECIDOS, POSSIVELMENTE TERRORISTAS, EMPREENDENDO FUGA PARA LOCAL INGNORADO…”
[…]
Continuamos morando no Rio e começaram a chegar informações mais terríveis: ele tinha sido torturado e morrera. “Mas como? Não existe tortura no Brasil…”
[…]
O motivo da prisão parece ter sido uma carta enviada por alguns amigos exilados no Chile.
[…]
Rubens Paiva não foi o único “desaparecido”. Há centenas de famílias na mesma situação: filhos que não sabem se são órfãos, mulheres que não sabem se são viúvas. Provavelmente, o homem que me ensinou a nadar está enterrado como indigente em algum cemitério do Rio. O que posso fazer? Justiça neste país é uma palavra sem muita importância. As pessoas de farda ainda são os donos do Brasil, e eles têm um código de ética para se protegerem mutuamente.”
Em 1992, a revista Veja publicou uma entrevista com Marival Dias Chaves do Canto, ex-agente dos órgãos de informação do Exército, que logo após o impeachment do presidente Fernando Collor, decidiu contar tudo o que sabia sobre o período autoritário. Quando questionado sobre o paradeiro de Rubens Paiva, Chaves afirma: “Ele foi levado por um destacamento do I Exército para a casa de Petrópolis, onde o mataram. Usaram o método de cortar o corpo aos pedaços e enterrar em locais diferentes.” Ressalta ainda que os “Agentes que estiveram numa casa mantida pelo Centro de Informações do Exército em Petrópolis, no Rio de Janeiro, me contaram que os cadáveres eram esquartejados, às vezes até em catorze pedaços, como se faz com boi num matadouro. Era um negócio terrível. Eles faziam isso para dificultar a descoberta e a identificação do morto. Cada membro decepado era colocado num saco e enterrado em local diferente. A casa de Petrópolis foi onde o Centro de Informações do Exército mais matou presos e ocultou cadáveres. Os militantes detidos em diversas regiões do país eram enviados dos Estados diretamente para Petrópolis.”
A família de Rubens Paiva recebeu, em 1996, uma certidão de óbito, mas seu corpo, até hoje, continua desaparecido. No último dia 11, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) entregou um pedido de investigação à Procuradoria Nacional da República, requerendo a apuração do caso, pois a versão oficial ainda é de que ele fora seqüestrado.
Camila Garcia
Estagiária do IBCCRIM
Links Relacionados:
Site sobre o Documentário “Perdão, Mister Fiel
Íntegra da Entrevista com Marival Chaves, ex-agente do DOI-CODI