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“Esse Inferno” – relatos de tortura

  • fevereiro 22, 2010

Obra retrata mulheres torturadas na ditadura argentina

Com a retomada do julgamento dos oficiais da Escola de Mecânica da Armada (ESMA), no dia 15 de janeiro, pelo seqüestro de 85 pessoas no período de 1976 e 1977 é interessante atentar para o livro “That Inferno”, escrito por cinco mulheres que sobreviveram ao período de detenção na ESMA.

Liliana Gardella, Cristina Aldini, Munú Actis, Miriam Lewin e Elisa Tokar tornaram-se amigas no período em que ficaram presas na ESMA e publicaram em 2006 um livro sobre as experiências vividas durante a repressão.


Retrato das autoras do livro

Por conta da atuação política, essas mulheres, jovens nos anos setenta, escondiam-se em hotéis, apartamentos vazios, mentiam para suas famílias e vizinhos, vivendo de modo clandestino em Buenos Aires. Elisa conta que sempre andava com uma troca de roupas de baixo, caso fosse preciso passar a noite fora.

Elas relatam a dificuldade de se estabelecer em um determinado local, bem como o medo de retornar a suas casas para pegar suas próprias coisas. Até mesmo o trabalho era executado às escondidas. Miriam relata que trabalhava embaixo de uma mesa em uma fábrica.

Portanto, observa-se que a vida das militantes era muito tensa, mesmo antes da captura, um exemplo disso era também a necessidade de carregar um comprimido de cianureto, pois era mais interessante recorrer ao suicídio do que cair nas mãos dos oficiais.

As autoras foram capturadas em lugares diferentes, mas Miriam relembra como foi sua primeira sessão de tortura, em que estava amarrada e nua, numa sala cheia de oficiais que a violentavam de muitas maneiras, como choques, estupros e xingamentos.

Já sobre os meses ou até mesmo anos passados na ESMA, relatam o clima desconfiança como fator predominante entre os prisioneiros, e também a estranha relação estabelecida entre eles e os seqüestradores. Não havia barreira entre vítimas e opressores, eles jantavam, passeavam de carro, jogavam xadrez e iam ao cinema juntos. Elisa e Liliana chegaram a negar o fato de que foram torturadas durante certo tempo

Um episódio interessante relatado por elas era sobre uma prisioneira que cuidava de uma plantinha, a qual foi destruída, encontrada mutilada com uma faca fincada na terra revirada, como em um ritual macabro. Nem mesmo as plantas tinham vez na ESMA, qualquer esperança era tolhida daqueles capturados.

Em um trecho Munú, pintora que retornou a Argentina após a redemocratização, afirma: “The torture happened only once, but it lasts a lifetime”.

O presente julgamento, que ainda está em andamento, conta com alguns dos torturadores das autoras, como Alfredo “Angel” Astiz, Jorge “Tigre” Acosta e Antonio “Trueno” Pernía.

Astiz é uma figura singular, conhecido como o anjo loiro da morte, o capitão está envolvido em muitos dos seqüestros, em vôos da morte, onde os prisioneiros, após serem anestesiados, eram jogados no oceano ou no Rio da Prata e também se infiltrou no grupo das Mães da Praça de Maio. Atuou sob o nome de Gustavo Niño, fingindo ser irmão de um desaparecido, participando de encontros com religiosos e entidades de direitos humanos. Desta forma, conseguiu identificar e prender muitos militantes, como as três fundadoras da associação de mães.

  Se reanudó el juicio por la ESMA
O capitão Alfredo Astiz na época da ditadura e atualmente durante o julgamento dos crimes contra a humanidade

Em 1998, Astiz concedeu uma entrevista à revista argentina Trespuntos. Durante a conversa ele nega a participação nos vôos da morte, bem como no seqüestro de bebês, filhos dos militantes. Também afirma que não traiu as mães da Praça de Maio, já que não era uma delas, diz que ri deste tipo de acusação. Nega a participação em qualquer tipo de tortura e conta que o único ato de lucidez em sua vida foi tornar-se membro da armada.

É importante atentar para o tratamento dos crimes contra a humanidade na Argentina em tempos do novo programa nacional de direitos humanos e da tentativa de rever a Lei de Anistia em nosso país.

(CG)

Trechos do Livro “That Inferno” http://books.google.com/books?id=ZbR_yEWGKbwC&hl=pt-BR&source=gbs_navlinks_s

Íntegra da entrevista de Alfredo Astiz http://www.ser2000.org.ar/protect/docs-sobresalientes/astiz.htm

Notícias do Jornal La Nación http://www.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=1222107

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